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4.3. Hepatite tem cura
Antônio Marinho
Agência O Globo
Um mês antes de estrear a peça Cheiro de Chuva, a atriz Marilene Saade, casada com o ator Stênio Garcia, começou a sentir cansaço e dores nas articulações. Na época pensou que era estresse, mas preferiu procurar seu reumatologista, que descartou a hipótese de problema reumático. Foi a um clínico e seus exames mostraram que os sintomas eram reflexo de hepatite B aguda, causada por vírus e transmitida pelo sangue e por outros líquidos do corpo. Este vírus é dez vezes mais contagioso que o da Aids.
“Eu, que já havia enfrentado um câncer de mama, levei um grande susto. Para nossa surpresa, os exames do Stênio revelaram que ele já havia sido infectado pelo vírus B, mas não teve sintomas. No meu caso, acho que fui contaminada ao fazer tatuagem. O meu organismo, porém, livrou-se da doença por conta própria sem precisar de medicamentos. Fiquei de repouso meses, sem poder trabalhar, e tive que modificar toda a minha rotina”, conta Marilene.
O casal deu sorte. As infeções por vírus de hepatite (os mais comuns são os vírus A, B e C) constituem um problema de saúde pública e a doença pode se tornar crônica (nos casos dos vírus B e C), com complicações graves como cirrose e câncer de fígado. E pelo menos dois milhões de brasileiros são portadores do vírus de hepatite B, ou VHB (são 400 milhões no mundo), e potencialmente transmissores da doença.
Vacinas
O perigo é maior porque as hepatites nem sempre apresentam sintomas. Por exemplo, o vírus C (170 milhões de portadores no mundo) é capaz de desenvolver formas crônicas assintomáticas. Já a hepatite A (infecta 1,5 milhão de pessoas por ano no mundo e é transmitida pela água e por alimentos contaminados) é mais comum em regiões pobres, sem saneamento. Em raros casos pode ser fulminante.
A boa notícia é que as hepatites são prevenidas com medidas como usar camisinha, não compartilhar seringas, agulhas e outros instrumentos perfuro-cortantes e fazer um bom pré-natal (a transmissão de gestante para o bebê é comum no país), além do melhor controle do sangue e dos seus derivados. Há ainda as vacinas contra os vírus A e B. Mesmo quem tem hepatite crônica B ou C, dependendo da existência ou não de replicação viral e do grau de inflamação e de fibrose no tecido hepático (avaliados na biópsia), dispõe de tratamentos que controlam ou curam a infecção.
“Podemos falar em cura da hepatite C. Há pacientes tratados há mais de cinco anos e sem apresentar a replicação do vírus”, diz o hepatologista Mário Pessôa.
Os infectologistas são unânimes em afirmar que o caminho para evitar as hepatites é o da conscientização. O ator Stênio Garcia concorda e diz que o que colaborou para ter uma hepatite “branda” foi seu estilo de vida saudável. “Tive a doença assintomática. Faço alimentação orgânica e acho que isso contribuiu. Mas a hepatite é perigosa. Daí a importância de saber como prevenir, fazer o teste de diagnóstico e iniciar o tratamento logo”, diz ele, que, com a mulher, participa do “Hepa!, Hepatite B: Preste Atenção” (www.hepab.com.br), um programa de conscientização sobre a doença, da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH).
A falta de informação abre a porta para a contaminação e dificulta o tratamento. Segundo dados da SBH, apenas nove mil brasileiros recebem tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Criança tem mais chance de se tornar portador crônico
A falta de informação é grande até nas maiores cidades do País. Segundo pesquisa do Instituto Emílio Ribas, 76% dos habitantes de São Paulo desconhecem as formas de contágio das hepatites. Poucas pessoas sabem que tesouras, lâminas de barbear, alicates de unha ou qualquer outro objeto cortante, agulhas e até tinta de tatuagem (devem ser descartadas) podem conter o vírus. Gestantes infectadas também oferecem risco: a transmissão da mãe portadora do VHB para o feto causa infecção crônica em 70% a 90% dos casos. Apenas 5% a 10% dos infectados pelo vírus B se tornam doentes crônicos (a maioria elimina o vírus espontaneamente). Mas é bom não arriscar: 50% das formas crônicas levam à cirrose e ao câncer.
“Se a pessoa tiver relação sexual com portador de VHB, tem 20 vezes mais chances de contrair essa doença do que a Aids. O vírus é tão resistente que sobrevive mais de cinco dias no ambiente. É bem adaptado à espécie humana e é oncogênico, isto é, capaz de causar câncer, sem necessariamente passar pela etapa da cirrose. Quando os sintomas aparecem, já houve comprometimento do fígado”, diz o gastro-hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia. “O VHB é encontrado na saliva, mas não há comprovação de que é transmitido por beijo ou sexo oral e não se propaga na pele íntegra. Mas é uma doença sexualmente transmissível”.
Antes de pensar em tratamento, é melhor se proteger. As vacinas contra VHA e VHB são quase 100% eficazes e proporcionam imunidade por mais de dez anos. No caso de VHC, as variações do vírus dificultam o desenvolvimento de uma vacina. “A vacina é o meio mais eficaz para prevenir. Já a hepatite B mata de um a dois milhões por ano no mundo e é responsável por 80% dos tumores primários de fígado (do tipo hepatocarcinoma)”, diz a gastro-hepatologista Ana Maria Pittella.
Silenciosa, traiçoeira e perigosa, a hepatite B leva décadas para evoluir. Vai depender de fatores como idade e capacidade de defesa do sistema imunológico de cada indivíduo. Crianças têm menos probabilidade de apresentar sintomas devido à intolerância imunológica. Recém-nascidos infectados são assintomáticos e se tornam portadores crônicos do vírus em mais de 90% dos casos.
“Quando o indivíduo é infectado pelo VHB, sua chance de eliminar espontaneamente o vírus e não se tornar doente crônico é inversamente proporcional à idade no momento em que contraiu a infecção. Crianças infectadas ao nascer têm chance de 90% a 95% de se tornarem portadores crônicos”, diz o hepatologista Pessôa.
Livre de vírus
A hepatite C é curável se a pessoa tiver acesso aos remédios e seguir a orientação médica. “É possível eliminar o vírus em mais de 50% dos casos e a chance de a doença retornar é inferior a 5%”, diz o hepatologista Paraná.
Mesmo quando a doença não evolui, muitos pacientes se queixam de perda de qualidade de vida, sobretudo cansaço, principalmente quando a infecção é descoberta por acaso em exames de sangue de rotina. “O indivíduo pode se sentir mal emocionalmente. A decisão de tratar os portadores sem doença progressiva de fígado deverá ser baseada no prognóstico, no estado clínico e na capacidade de tolerância do paciente. A fase crônica pode permanecer assintomática por décadas”, explica a médica.
O tratamento da hepatite C combina interferon convencional ou peguilado com ribavirina.
Pesquisa apresentada no Congresso da Associação Americana para Estudos do Fígado, realizada em vários países, inclusive no Brasil, mostrou que em 64% dos 1.122 pacientes estudados o interferon peguilado proporcionou queda significativa dos níveis de VHC. Em 39% dos indivíduos o vírus não foi mais detectado.
Cerca de 70% dos portadores de hepatite C infectados com o genótipo 1 do HCV não se beneficiam do tratamento com o interferon convencional, sendo mais adequado o uso de interferon peguilado. Entre os portadores dos genótipos 2 e 3, o índice de resposta é em torno de 20%.
Para receber medicamentos do SUS, os portadores de hepatites precisam preencher critérios de um protocolo de tratamento do Ministério da Saúde e ser avaliados nas secretarias de saúde.
Publicado em 28/10/2005 12:36:17
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