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3.4. Sífilis e Aids: semelhanças e diferenças
Tão logo a Aids foi reconhecida como ameaça à saúde, muitas teorias foram criadas para explicar o surgimento desta misteriosa doença, variando desde o simplório até o paranóide. Algumas eram muito estranhas, como aquela formulada pelo médico americano Harris Coulter num livrinho publicado em 1987 e intitulado Sífilis e Aids: O Elo Oculto. Àquela altura o HIV já era conhecido, mas, segundo Coulter não era o causador da doença, uma forma de sífilis "mascarada pelos antibióticos". O vírus seria responsável apenas por uma infecção secundária, não letal, de pacientes sifilíticos. É claro que a teoria não prosperou, mesmo porque sífilis e Aids seguiam trajetórias diversas, a primeira em descenso, a segunda crescendo rapidamente. Mas não há dúvida que sífilis e Aids têm traços em comum, que podem ajudar na compreensão de seu surgimento e disseminação.
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Ambas são doenças sexualmente transmissíveis, mas também podem comprometer os bebês no útero e se propagar através da transfusão de sangue. E ambas as doenças surgiram de maneira inesperada. A sífilis era praticamente desconhecida antes da modernidade européia, que começa por volta do século 15. Por que surgiu nesta época? Uma teoria fala na "conexão Colombo": a sífilis teria sido uma doença do Novo Mundo, contraída pelos marinheiros da frota do navegador genovês. Uma vez introduzida na Europa disseminou-se rapidamente. Primeiro, porque aquela era uma época de liberação sexual. Com o fim da Idade Média e a diminuição do controle moral exercido pela Igreja, o sexo era praticado desbragadamente, sobretudo porque guerras então se sucediam - e guerra é guerra, como se sabe. O primeiro tratamento para a doença, o mercúrio, curava mas era altamente tóxico e deixava os pacientes em petição de miséria. Finalmente a penicilina veio a se revelar uma terapia altamente eficaz.
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A Aids também apareceu de repente; até hoje não se sabe exatamente como. Robert Gallo, famoso pesquisador americano, postula que o HIV evoluiu a partir de um vírus de macacos africanos que "saltou" para a espécie humana, à semelhança do que pode acontecer com o vírus da gripe aviária. Como no caso da sífilis, este fenômeno coincidiu com a revolução sexual dos anos 60 e 70. De início pensava-se que era uma doença de homossexuais mas hoje está bem claro que este não é o caso.
Em termos de tratamento, estamos um pouco melhor do que os portadores de sífilis estavam com o mercúrio, mas as drogas ainda são um problema: caras e não isentas de efeitos colaterais. Estamos à espera de uma penicilina para a Aids, o que não será fácil de obter, porque quanto menor o agente agressor, tanto mais difícil de combatê-lo. Os gigantescos dinossauros fizeram o favor de desaparecer sozinhos. Leões e tigres que numa época eram o terror de nativos, hoje estão em extinção. Vermes e bactérias podem ser enfrentados, mas o vírus, que é um meio termo entre substância química e ser vivo, continua sendo um desafio. Em compensação, vacinas anti-virais são altamente eficientes. Neste momento, várias estão sendo testadas contra o HIV.
Ah, sim, e temos as lições do passado. E elas nos ensinam a ter cautela. Sexo seguro ainda é a grande resposta para as doenças sexualmente transmissíveis. Revoluções podem, e devem, ser feitas, mas moduladas pelo bom senso. Que, neste caso, salva vidas.
Publicado em 30/11/2005 16:28:01
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