Imagine que você sabe com toda certeza que seu nome é Carlos, mas todo o mundo o chama de José. Imagine que você, Carlos, se levanta pela manhã e sua querida família lhe diz "Bom dia, José, dormiu bem?". Imagine que os vizinhos e os companheiros de trabalho estão certos de que você se chama José. que a você dá até um pouco de vergonha contradizê-los, e começa a responder quando escuta este nome. E cada dia que passa, isso faz com que você se sinta pior.
Imagine um desonhecimento maior de sua identidade: imagine que você sabe com toda certeza que é uma mulher, que inclusive usa roupas de mulher, se maqueia como uma mulher e tem, depois de uma operação caríssima, genitais femininos, mas todo o mundo se refere a você como se fosse um homem... e isso faz com que cada dia se sinta pior, e passam meses e passam anos. As vezes passa toda a vida. Até as pessoas bem intencionadas falham com maior ou menor freqüência a hora de referir-se aos homens e mulheres transexuais no gênero correto. Inclusive savendo que produzem sofrimento, dizem que não podem evitá-lo. As razões com que tentam desculpar-se e justificar-se só estão vinculadas a uma associação "natural" entre o que vêem e o que dizem. Se em lugar de uma mulher transexual "vêem um homem", por mais que tentem chamar-la Joana, em algúm momento, dirão João.
Inclusive pessoas que reconhecem a associação entre sexo e gênero como algo mais cultural que natural, se defendem com a desculpa de "associação natural" a cada vez que se equivocam.
Depois de anos sendo tratada no gênero masculino contra minha vontade, comecei a darme conta de que o vínculo que o que normalmente as pessoas reconheciam como natural e inevitável, não estava tanto entre um sexo biológico dado e seu papel social "correspondente", mas sim entre as características sexuais secundárias de uma pessoa dada e as percepções sensoriais que as demais pessoas têm de ditas características. E cheguei a conclusão que o sexo aparente de uma pessoa pode provocar nas demais certos estímulos sensoriais tão incontroláveis como os que fazem as traças se atenham à luz até morrer queimadas.
Não sou psicóloga, lingüísta ou antropóloga, mas minha experiência de mulher transexual e minha constante observação (e padecimento) da forma em que sou tratada pelos demais, me levam a tirar algumas conclusões, provavelmente aventuradas, infundadas, pouco sérias ou já expressadas com anterioridade por pessoas melhor preparadas, segunso as quais os estímulos sensoriais provocados pelo sexo aparente de uma pessoa determinada, levariam aos outros seres humanos a uma percepção inconsistente, atávica, de dita pessoa, capaz de impor sobre as tentativas racionais de diferenciar o sexo físico do sexo linguístico. Se o cérebro percebe "macho" ou "fêmea", e a falta de manifestações linguísticas, produziria outras (gestuais, emocionais ou o que o for). Ou seja, não creio que os gêneros linguísticos masculino e feminino que se aplicam às pessoas derivem necessariamente dos papéis sociais masculino e feminino designados culturalmente, mas sim que podem se desenvolverse num plano paralelo autônomo, a partir da raiz comúm da percepção do sexo físico de ditas pessoas, de maneira direta e automática, sem mediações culturais. Fim das hipóteses.
Um dado certo é que muito antes de aprender que "os homens tem pênis e as mulheres não" qualquer bebê está dotado para receber as diferênças entre um homem e uma mulher. Sabe fazê-lo ainda que não possa explicar como nem por quê. Essa capacidade inata de diferenciar se mantém durante toda a vida, ainda que permanec]ça relegada a um segundo plano quando nos incalcas de maneira coletiva a lógica do criador de gado, segundo o qual a principal diferença, a diferença "real", está situada nos gnitais externos.
Os defensores deste conceito parecem ignorar que os genitais estão mascarados pela roupa, de maneira que permanecem fora de consideração na maior parte das circunstâncias da vida. A roupa não apenas oculta os genitais: é em si mesma uma forma de expressão de gênero tão forte como a linguagem gestual, mas as expressões de gênero como construções culturais, em muitos casos parecem não conseguir "convencer" aos sentidos de que devem abster-se de disparar um gênero lingüístico se este não concorda com o gênero identitário da pessoa do qual se fala.
E o que os sentidos lêem?... Eu diria que principalmente a cara, a voz, a textura da pele e peito/busto. E dentro da cara, especialmente o olhar: me disseram outras pessoas, eu o li de muitas fontes e além do mais vivi por mim mesma. Antes de minhas cirurgias de feminização facial, quase todo o mundo se referia a mim, pelo menos uma vez, no masculino. Inclusive gente que estava inteirada em minha identidade feminina. Haviam exceções mas eram raras. Os hormônios femininos haviam feito seu trabalho de redistribuição de lipídios, a depilação definitiva havia eliminado minha barba quase por completo, mas ainda que usasse roupa de mulher sempre se escapava um "Te vejo cansadO, Amanda". Com o tempo fui feminizando meus gestos, mas não foi até que operei meu rosto e aprendi a alterr minha voz (ao menos parcialmente) que as pessoas deixaram de se quivocar. Que a maioria não seja consciente das diferenças não anula sua influência senão sua potência.
Qualquer pessoa pode reconhecer se uma voz é de homem ou de mulher, mas como sucede no caso dos rostos, muitos poucos podem definir em que consistem as diferênças. Só pensar que a diferênça principal está no "registro" da voz ou no "tom", mas mesmo mulheres com vozes muito graves permanecem sendo reconhecidas como mulhere quando falam por telefone, e homens com vozes muito agudas seguem sendo reconhecidos como homens. Porque a diferença não está no "registro" senão na ressonância". Imaginemos um violino e um violoncelo, ambos tocando as mesmas notas, nem mais agudas nem mais graves... Porque soam distintos? Porque suas caixas de ressonância e suas cordas têm distintas dimensões.
A partir da puberdade, a testosterona faz com que a laringe dos meninos desca de cresca em tamanho, dando à voz sua característica masculina. O pomo de Adão aparece como reforço estrutural para este crescimento. Os transexuais de mulher a homem ganham uma mudança de voz geralmente muito efetiva mediante a incorporação de testosterona em seus organismos. Mas como os efeitos da testosterona são irreversíveis, as transexuais de homem a mulher que querem "passar" sem problemas devem corrigir fazendo exercícios para aprender a elevar a laringe e estreitas o trato vocal enquanto falam, e desta forma produzem uma voz de som femnino.
O olhar é menos importante que a voz. Ambos funcionam como ferramentas de comunicação e som, por tanto, as principais transmissoras de sinais de gênero. A partir do romantismo, na metade do século XIX, se disse que o olhar feminino era mais puro, ou mais bondoso ou mais inocente que o masculino. Os poetas românticos não sabiam que o gênero do olhar têm pouco a ver com questões espirituais. Nem sequer tem que ver com questões oftálmicas mas sim com questões ósseas: mais precisamente com a grossura e a forma do osso frontal. Os ossos frontais dos homens em geral formam um recorte ósseo na oarte superior das órbitas oculares e se projetam até adiante por cima dos olhos. Este é um traço que, como a mudança de voz, aparece na puberdade e apenas em garotos. A distância entre a superfície dos olhos e a parte mais prominente das sonbrancelhas é muito maior nos homens adultos que nas mulheres. O semblante das mulheres no geral conservamuma forma arredondada e lisa parecida com a de meninas e meninos, e é possível que por isso lhes associe com a inocência. A altura e a forma das sombrancelhas também influem na diferença de olhares.
Difereças sexuais secundárias como as que se encontram no peito, na voz e no olhar, no nariz, no queixo, na mandíbula, e outros traços faciais, são muito mais importantes que os genitais para a identificação consciente ou inconsciente do sexo das outras pessoas. Assim o ditam nossos sentidos desde que viemos ao mundo. Seria bom que todos aqueles que predicam o contrário e exigem, com leis ou discursos de café, com gozações cruéis ou conselhos supostamente amigáveis, que as pessoas transexuais alterem cirurgicamente seus genitais ainda que se sintam cômodas com eles e não desejem alterá-los, analizem honestamente o que é que percebem as pessoas e o que é que não percebem e repensarão con sinceridade como influi isso na classificação que fazem d@s demais. Por: Amanda Rosenfeldt
Traduzido por Aline de Freitas
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