Uma das mais importantes fontes de tensão num primeiro encontro entre dois gays é relativa à definição dos papéis sexuais. Quando não há a oportunidade de checar a preferência do parceiro a priori (em encontros fortuitos, por exemplo), muitos procuram identificá-la a partir da observação de certos padrões de atitude e de comportamento (quase sempre baseados em estereótipos de masculinidade). E mesmo quando já se tem a informação (como no caso dos encontros via internet), paira sempre a dúvida sobre se o declarado na fase de “negociação” corresponde de fato à verdadeira preferência do outro. Principalmente quando não há preferência declarada, ou seja, quando a opção “versátil” é a escolhida.
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Noto na minha prática clínica que essa tensão pode adquirir um nível extremamente alto, pois para muitos gays a definição dos papéis sexuais é freqüentemente um fator determinante para a continuidade do relacionamento. Ou seja, não se trata, em muitos casos, simplesmente de uma preferência sexual, mas sim de uma condição sine qua non para o futuro da relação. É preciso que haja uma combinação perfeita, um ativo e o outro passivo, o que faz com que os versáteis sejam vistos com uma certa suspeição (como se na prática tivessem uma preferência, que mais cedo ou mais tarde acabará prevalecendo).
Embora a questão do papel sexual possa ser vista sob o ângulo da preferência por uma modalidade de prática sexual (e, portanto, de prazer sexual), ela é na verdade bem mais complexa, pois é carregada de significados psicológicos profundos, normalmente associados a um poderoso jogo de poder, baseado nas polaridades de dominação e submissão. Assim, ativos tendem a obter sua satisfação não apenas pela penetração em si, mas também pela sensação de dominação que experimentam em relação ao seu parceiro. Passivos, por sua vez, gratificam-se com o prazer de serem penetrados e também de serem dominados. Esses jogos, mais evidentes na relação sexual propriamente dita, costumam se dar também nas relações fora da cama e representam uma importante fonte de tensão, responsável pela manutenção de muitas relações.
A atração que dominados têm por dominadores (e vice-versa) pode funcionar como um poderoso ímã sexual, mas pode ser também o reflexo de um padrão recorrente de relacionamento afetivo-sexual. Ou seja, um único jeito (e que, portanto, sempre se repete) de vivenciar a experiência de amar e ser amado. Esses padrões costumam ser fixados muito cedo, a partir de experiências afetivas significativas, e por isso tendem a ser difíceis de serem alterados.
Se nas relações heterossexuais esses jogos representam, em maior ou menor grau, as polaridades tradicionalmente associadas aos gêneros masculino e feminino (pelo menos na forma como a sociedade ocidental os vê), nas relações homossexuais eles adquirem um caráter altamente limitador, uma vez que não são necessariamente essas as polaridades a serem integradas. O relacionamento entre dois homens – e, portanto, entre iguais – possibilita na verdade a união entre vários outros pares de opostos além da dualidade homem-mulher. Exatamente por envolver dois homens e não estar sujeita à ideologia que estabelece a heterossexualidade como padrão universal de sexualidade é que a relação entre gays encerra múltiplas possibilidades afetivas e sexuais.
Os só ativos e os só passivos, tanto na cama como na vida, podem estar não apenas reproduzindo de forma inconsciente um padrão heterossexual estereotipado, mas também perdendo a oportunidade de explorar e descobrir outras formas de amar e ser amado.