Eu escolho azul. Muitas das vezes, a melhor forma de enxergar o futuro é olhar para o pretérito. Um menino de 4 anos é convidado para festa de aniversário da coleguinha de classe e, quando sua mãe pergunta o que ele quer levar de presente, ele responde: um carrinho. A mãe retruca: carrinho é brinquedo de menino. Ele soluciona: vamos então levar um carrinho cor-de-rosa. Carmen Bruder Quem de nós não associa o azul ao masculino e o rosa ao feminino? E por que fazemos isso? Quem de nós não tem uma cor predileta, em seus mais variados matizes, do roxo ao verde-limão? Dizemos assim: eu escolho azul, ou então, azul é a minha cor. Será que se trata de uma escolha, será que essa escolha é minha? Quão particular do ser humano é a possibilidade de escolher! Quero comer carne e não peixe, ou então, tenho fome, mas não quero comer, porque quero emagrecer. Quero casar com fulano e não com beltrano.
Estou com sono, mas quero estudar. E assim ad infinitum. É assim que as crianças dizem aos pais: "Deixa que eu escolho!". Certo, então escolha. E agora? Em que critérios alguém, qualquer um, se baseia quando escolhe algo, qualquer coisa? Curiosamente, é muito fácil entender que gente tenha o direito de escolher, ainda que não haja nenhuma explicação exata de como e por que se chega, enfim, ao objeto escolhido, ao rosa ou ao azul. É muito natural para todos lidar com a necessidade de se fazer escolhas durante a vida, desde que não se trate, é claro, da escolha do sexo do objeto a ser amado.
A esse respeito, de sexualidade, o comum é pensar que não há escolha, que nascemos pré-determinados pelo corpo físico: quem nasce com genitais masculinos será homem e quem nasce com genitais femininos será mulher.
E não só isso, mas, também, que um homem escolherá como objeto de seu amor uma mulher, e esta escolherá um homem. Assim, simples e facilmente, como acontece com os demais animais. O engano começa em achar que para os humanos há alguma garantia que possa advir do biológico. Se houvesse, ninguém faria greve de fome, não haveria bulemia, nem obesidade. Ninguém jamais questionaria sua própria sexualidade, ainda que inadvertidamente, quando diz assim: "Noutra encarnação quero vir homem (mulher)". Quem já não viu alguém bonito que se considera feio, magro que se acha gordo, e por aí afora? Desde que se é gente, habita-se um universo próprio, o das palavras, que permite aos seus usuários, as pessoas, significar todas as coisas. Todas, inclusive os atributos físicos de cada um, sexuais ou não. E mais, significá-las de forma individual e particular, de acordo com as experiências e possibilidades pessoais de cada um, sem nenhuma garantia, seja ela de ordem biológica, econômica, amorosa. É de significação que falamos quando dizemos opção. O que significa algo para alguém. Lembram-se de que, há poucas semanas, uma rádio local levava ao ar uma enquete para saber a opinião do ouvinte sobre se o Hospital das Clínicas deveria ou não realizar uma cirurgia de transexuação num homem? Que cada homem pare e se pergunte se deixaria que lhe amputassem o próprio pênis. É possível que alguns preferissem a morte. Mas há, no entanto, alguns para os quais se ver livre desse órgão parece ser a própria possibilidade de viver. Será que estamos falando de uma mesma coisa, de um mesmo órgão? Sim, do ponto de vista real e factual. Porém, do ponto de vista do que significa o pênis para quem precisa conservá-lo a qualquer custo e para quem precisa se livrar dele a qualquer custo, fica evidente que não estamos falando de uma mesma coisa, ainda que a coisa pareça ser a mesma. É exatamente isso que significar representa: dar valor a alguma coisa, própria ou não. E, sobre esse valor, cada um só pode responder pelo seu. Por isso alguns gostam do roxo e outros do verde; alguns procuram seus companheiros no universo do sexo oposto e outros no mesmo universo seu; alguns comem quando têm fome e outros se privam de comer. E, como se não bastasse, esse processo de significação do qual ninguém escapa, é muito mais complexo do que parece. Porque, se ele fica evidente, ainda assim, não é suficiente para fazer entender como cada qual chegou à sua escolha. É como ser estrangeiro dentro da própria casa. Sabemos que ela é nossa, mas não sabemos por que vias ela veio a sê-lo. De tudo isso, só uma certeza: se não respeitarmos a casa dos outros, não teremos a nossa respeitada pelos outros. E nesse caso, mais ainda, o respeito de cada qual pela sua própria casa passa, necessariamente, pelo respeito à do outro. Carmen Bruder é médica, psicanalista e advogada
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